Sobre o Consigo
Depois de ter começado na vida por baixo e ter subido até os mais altos níveis, me tornando CEO e fundador de startups, eu quebrei em todos os aspectos. Sem amigos, distante da família, distante de Deus e sem dinheiro para nada, cheguei ao que era para mim o fundo do poço.
E, apesar da penosa situação em que vivia, não sei como, arrumei um pouco de dinheiro, levei meu pequeno filho para almoçar o parmegiana de que ele tanto gostava, expliquei a ele o que estava acontecendo, juntei minhas roupas em uma mochila e fui viajar pelas praias do litoral sul do Brasil. Vivi de forma simples, em hostels, pousadas e, às vezes, me hospedando de favor em apartamentos vagos por causa do inverno — frio o suficiente para ter quilômetros de praia só para mim, mas, principalmente, para me forçar a ficar apenas comigo mesmo.
Foram meses vagando, buscando me reencontrar. Eu queria ser aquele "eu" vigoroso, destemido, capaz de fazer qualquer coisa e obter sucesso. Eu queria me achar novamente. Demorei para entender que não precisava me procurar, porque eu já estava ali. E o pior: era fruto, resultado de todas as decisões que tomei ao longo da vida. Isso foi um choque, porque entendi que buscava por uma versão minha que havia me enganado e me jogado no fundo do poço. E, apesar de triste, sem dúvida eu gostaria de ter percebido isso muito antes. Mas a identidade que eu usava não me permitia. As recompensas de prazer eram muitas e eu apenas conseguia querer mais. Apesar de ter obtido reconhecimento profissional, preciso admitir que vivi fugindo da responsabilidade, sem compromisso e sem disciplina, empilhando péssimos hábitos uns sobre os outros, sem me importar com o que resultaria. Mas a conta chegou.
Quando tomei consciência de quem eu era, percebi o quanto estava "feio", por dentro e por fora. Inchado pelo consumo excessivo de álcool, com a pele maltratada pela falta de cuidado e o fôlego inexistente pelo sedentarismo e uso constante de cigarro, vivendo um dia após o outro como se não houvesse amanhã. Alimentação péssima e o intestino sempre avisando que algo não estava bem. Cheio de dívidas, afundado em uma completa desorganização financeira e sem nenhuma perspectiva de arrumar a casa, pois não tinha confiança para buscar um emprego — o que, por si só, afastava oportunidades. Pedi ajuda a diversos amigos, eles tentaram, mas eu não estava pronto. Que vida péssima eu havia construído.
Mas quando passamos a reconhecer quem somos, é aí que a transformação começa. Eu parei de reclamar, parei de fumar, parei com o consumo excessivo de álcool, passei a me alimentar melhor, a agradecer pela comida e a enxergar beleza nas coisas simples. Não foi fácil. Não foi da noite para o dia.
Foi buscando conhecimento, na literatura mesmo, que passei a entender mais sobre comportamento humano e formação de hábitos. Nesse processo, três livros foram essenciais para mim: "O Poder do Hábito", "Hábitos Atômicos" e "Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar". Cada um deles trouxe conceitos que serviram perfeitamente para explicar aquilo que eu precisava compreender — afinal, tenho, segundo a psicologia, uma "Alta Necessidade de Cognição" e opero, de acordo com a filosofia aristotélica, com o pensamento a partir dos Primeiros Princípios. Ou seja, eu preciso aprender sobre o tema de forma a ser capaz de identificar seus conceitos essenciais para, então, operar sobre eles. É um caminho mais difícil e demorado para mim, porém, extremamente enriquecedor.
O primeiro livro, "O Poder do Hábito", estruturou como os hábitos são formados e como podem ser desmantelados; o segundo, "Hábitos Atômicos", mostrou duas coisas fundamentais: a possibilidade de começar com pequenos passos essenciais e a formação de identidade por meio da rotina; já o terceiro, "Rápido e Devagar", deixou claro, por diversas vias, como nossa mente funciona, despertando em mim a busca e o aprofundamento na neurociência, em especial, na neuroplasticidade.
E estudando toda essa matéria, decidi colocar a teoria na prática e passei a criar meu planejamento semanal para realizar microtarefas diárias. Comecei usando a agenda do Google. Primeiro, planejei uma rotina do começo ao fim do dia, tudo bem elaborado, com alarmes precisos: meditação matinal, exercício, café da manhã, trabalho, almoço, ligação para o meu filho, mais trabalho, leitura, jantar, agradecimento, sono. No começo isso me ajudou, mas logo percebi que a vida não é tão engessada assim; simplesmente não dava para fazer tudo exatamente como estava planejado na agenda, o que forçou a primeira quebra de contrato. E, quando você quebra o contrato uma vez, seu cérebro passa a aceitar aquilo como possível e cria tendências para quebrar novamente sem o menor esforço. É o mesmo conceito da construção do hábito, só que invertido.
Para resolver isso, entendi que poderia manter meus compromissos diários, todos eles, mas que precisava ser flexível. Ou seja: eu continuaria executando todos, mas não necessariamente no horário programado, porque a minha realidade simplesmente pedia essa adaptação. O importante era chegar ao final do dia com todas as tarefas da lista concluídas. Foi então que me ocorreu um estalo: lembrei-me de um projeto que havia começado há 5 anos, chamado "Hoje eu consigo". A ideia inicial era um aplicativo de desafios diários para que as pessoas realizassem ações como dizer "eu te amo" para alguém especial ou deixar um bilhete com uma mensagem positiva em um banheiro público. Ou seja, não tinha nenhuma relação com formação de hábitos, mas talvez com uma possível falta de relações mais verdadeiras. Ainda assim, a estrutura do projeto já era uma lista de tarefas focada no "hoje" mas sem a rigidez de horários. A ferramenta estava quase pronta, faltavam apenas alguns ajustes para ter a minha própria ferramenta de revisão de hábitos.
E assim foi feito. Criei o App Consigo de acordo com essas necessidades reais, mantive a essência da frase "Hoje eu consigo" e criei uma categoria de desafios chamada "Inspirar-se", que carrega os desafios originais da primeira versão do "Hoje eu Consigo", e que eu super recomendo que qualquer pessoa mantenha habilitada.
Desde então, eu que parei de fumar, emagreci 15 quilos, voltei a correr, a pedalar quase todos os dias e a beber apenas de forma social e equilibrada, venho trabalhando em cada detalhe desse aplicativo, e utilizando-o diariamente, para ajudar mais pessoas. E por quê? Os autores de todos os livros que li sobre hábitos passaram por grandes dificuldades em suas vidas para desenvolverem seus métodos; eu, honestamente, nunca me achei suficiente para escrever um livro, mas, considerando o tempo que passamos grudados nas telas do celular, acredito que um aplicativo pode ser ainda mais útil e acessível.
Espero que sirva para você.
Att, Jeff Monteiro